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Refluxo vesicoureteral: o diagnóstico que aparece depois da infecção urinária

Dr. João Estrela · ·5 min de leitura ·Revisado por Dr. João Estrela, CRM-BA 27225, RQE 20093, em 28/09/2026

Refluxo vesicoureteral é o retorno da urina da bexiga para o ureter e, em parte dos casos, até o rim. Ele não dói e não se manifesta sozinho, costuma aparecer na investigação de uma infecção urinária com febre.

Boa parte dos casos leves desaparece com o crescimento, e a cirurgia fica reservada para os graus altos que persistem ou para quem continua infectando mesmo com acompanhamento.

A conversa que se repete no consultório

A família chega com um exame na mão e uma frase pronta: "descobriram que a urina do meu filho volta para o rim".

O susto é compreensível, porque a imagem que a pessoa monta na cabeça é de algo grave e irreversível. Na maioria das vezes não é.

Eu começo explicando o que é normal. A urina se forma no rim, desce pelo ureter e fica na bexiga até a hora de sair. Na entrada do ureter na bexiga existe um mecanismo que funciona como uma válvula, e essa válvula impede que a urina volte quando a bexiga contrai.

No refluxo, essa válvula não funciona direito.

O problema não é a urina voltar, é a infecção subir junto

Urina estéril voltando não causa dano. O risco aparece quando existe bactéria: a infecção alcança o rim com facilidade, inflama, e a inflamação repetida pode deixar cicatriz.

Cicatriz renal é a coisa que a gente quer evitar. Ela não dá sintoma na infância e cobra a conta anos depois, em forma de pressão alta e de perda de função do rim.

Por isso o acompanhamento existe. Não é para tratar o refluxo em si, é para proteger o rim enquanto o refluxo ainda está lá.

Por que o refluxo acontece

A causa mais comum é uma alteração de nascimento no mecanismo valvular da junção entre ureter e bexiga.

Existem também causas ligadas ao funcionamento: bexiga que trabalha com pressão alta, obstrução na saída da urina e disfunções do esvaziamento. Nessas situações, tratar a bexiga muda o refluxo.

Essa é a parte que mais me interessa na consulta, porque é a que tem ação imediata. Criança que segura xixi e vive com o intestino preso mantém o refluxo funcionando contra ela, e isso a gente corrige sem cirurgia.

Explico esse ponto em detalhe na página sobre xixi na calça depois do desfralde.

Os graus dizem o tamanho do problema

A classificação vai de I a V:

  • no grau I, a urina volta só até o ureter
  • no grau II, chega ao rim, sem dilatar
  • no grau III, existe dilatação leve
  • no grau IV, a dilatação é moderada
  • no grau V, a dilatação é importante e o ureter fica tortuoso

Graus I e II têm alta chance de resolver sozinhos com o crescimento. Graus IV e V resolvem espontaneamente com muito menos frequência.

Os exames que fecham o diagnóstico

A ultrassonografia dos rins e das vias urinárias é o primeiro passo, e ela sugere, não confirma.

A uretrocistografia miccional é o exame que define o diagnóstico e o grau. A cintilografia renal com DMSA mostra se já existe cicatriz e como está a função de cada rim.

Nem toda criança com infecção urinária precisa desses exames. A indicação sai da idade, da gravidade do episódio e de quantas vezes a infecção voltou, assunto que eu detalho na página sobre infecção urinária em criança.

Nem todo refluxo precisa de cirurgia

Começo dizendo o mais importante: muitos casos leves se resolvem espontaneamente.

As opções são acompanhamento clínico com ultrassom seriado, profilaxia antibiótica em dose baixa quando indicada, e correção das disfunções de esvaziamento da bexiga e do intestino.

A cirurgia entra quando existe refluxo grau IV ou V que persiste, infecções urinárias febris que continuam voltando, cicatriz renal que avança ou falha do tratamento conservador.

A cirurgia mais comum é o reimplante ureteral, que reconstrói o túnel do ureter dentro da parede da bexiga e devolve o mecanismo de válvula. Pode ser feita por via aberta, por videolaparoscopia ou por cirurgia robótica, com taxa de sucesso acima de 95%.

Perguntas frequentes

Refluxo vesicoureteral tem cura?

Tem. Pode desaparecer sozinho com o crescimento, principalmente nos graus baixos, ou ser corrigido por cirurgia quando existe indicação.

Toda criança com infecção urinária tem refluxo?

Não. O refluxo aparece em parte dos casos, e o diagnóstico depende de exame específico, não do episódio de infecção em si.

A profilaxia com antibiótico é segura?

Quando bem indicada e acompanhada, sim. Ela usa dose baixa, com objetivo de evitar novas infecções enquanto o refluxo ainda existe.

O refluxo dói?

Não. O que dói é a infecção urinária que pode vir junto. O refluxo em si é silencioso, e essa é a razão de ele passar despercebido.

Meu filho vai precisar de cirurgia?

Na maioria dos casos, não. A decisão leva em conta o grau, a idade, se há cicatriz renal e como a criança responde ao acompanhamento.

Pode voltar depois da cirurgia?

É incomum. O reimplante ureteral tem alta taxa de sucesso, e o acompanhamento depois serve para confirmar que o rim segue bem.

Fontes

Sobre o autor

Dr. João Estrela é médico urologista em Salvador-BA, com atuação em urologia pediátrica, cirurgia robótica e vasectomia sem cortes. Formado pela UFBA, com residência em Cirurgia Geral e em Urologia, atende crianças e adultos com foco em diagnóstico correto antes de qualquer indicação cirúrgica.

CRM-BA 27225 · RQE 20093 · Salvador, BA

Aviso: este conteúdo é informativo e educativo e não substitui uma consulta médica. Só a avaliação com um urologista de confiança pode dizer o que vale para o caso do seu filho.

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Publicado em 25 de setembro de 2026 · Rins e vias urinárias

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