Refluxo vesicoureteral: o diagnóstico que aparece depois da infecção urinária
Refluxo vesicoureteral é o retorno da urina da bexiga para o ureter e, em parte dos casos, até o rim. Ele não dói e não se manifesta sozinho, costuma aparecer na investigação de uma infecção urinária com febre.
Boa parte dos casos leves desaparece com o crescimento, e a cirurgia fica reservada para os graus altos que persistem ou para quem continua infectando mesmo com acompanhamento.
A conversa que se repete no consultório
A família chega com um exame na mão e uma frase pronta: "descobriram que a urina do meu filho volta para o rim".
O susto é compreensível, porque a imagem que a pessoa monta na cabeça é de algo grave e irreversível. Na maioria das vezes não é.
Eu começo explicando o que é normal. A urina se forma no rim, desce pelo ureter e fica na bexiga até a hora de sair. Na entrada do ureter na bexiga existe um mecanismo que funciona como uma válvula, e essa válvula impede que a urina volte quando a bexiga contrai.
No refluxo, essa válvula não funciona direito.
O problema não é a urina voltar, é a infecção subir junto
Urina estéril voltando não causa dano. O risco aparece quando existe bactéria: a infecção alcança o rim com facilidade, inflama, e a inflamação repetida pode deixar cicatriz.
Cicatriz renal é a coisa que a gente quer evitar. Ela não dá sintoma na infância e cobra a conta anos depois, em forma de pressão alta e de perda de função do rim.
Por isso o acompanhamento existe. Não é para tratar o refluxo em si, é para proteger o rim enquanto o refluxo ainda está lá.
Por que o refluxo acontece
A causa mais comum é uma alteração de nascimento no mecanismo valvular da junção entre ureter e bexiga.
Existem também causas ligadas ao funcionamento: bexiga que trabalha com pressão alta, obstrução na saída da urina e disfunções do esvaziamento. Nessas situações, tratar a bexiga muda o refluxo.
Essa é a parte que mais me interessa na consulta, porque é a que tem ação imediata. Criança que segura xixi e vive com o intestino preso mantém o refluxo funcionando contra ela, e isso a gente corrige sem cirurgia.
Explico esse ponto em detalhe na página sobre xixi na calça depois do desfralde.
Os graus dizem o tamanho do problema
A classificação vai de I a V:
- no grau I, a urina volta só até o ureter
- no grau II, chega ao rim, sem dilatar
- no grau III, existe dilatação leve
- no grau IV, a dilatação é moderada
- no grau V, a dilatação é importante e o ureter fica tortuoso
Graus I e II têm alta chance de resolver sozinhos com o crescimento. Graus IV e V resolvem espontaneamente com muito menos frequência.
Os exames que fecham o diagnóstico
A ultrassonografia dos rins e das vias urinárias é o primeiro passo, e ela sugere, não confirma.
A uretrocistografia miccional é o exame que define o diagnóstico e o grau. A cintilografia renal com DMSA mostra se já existe cicatriz e como está a função de cada rim.
Nem toda criança com infecção urinária precisa desses exames. A indicação sai da idade, da gravidade do episódio e de quantas vezes a infecção voltou, assunto que eu detalho na página sobre infecção urinária em criança.
Nem todo refluxo precisa de cirurgia
Começo dizendo o mais importante: muitos casos leves se resolvem espontaneamente.
As opções são acompanhamento clínico com ultrassom seriado, profilaxia antibiótica em dose baixa quando indicada, e correção das disfunções de esvaziamento da bexiga e do intestino.
A cirurgia entra quando existe refluxo grau IV ou V que persiste, infecções urinárias febris que continuam voltando, cicatriz renal que avança ou falha do tratamento conservador.
A cirurgia mais comum é o reimplante ureteral, que reconstrói o túnel do ureter dentro da parede da bexiga e devolve o mecanismo de válvula. Pode ser feita por via aberta, por videolaparoscopia ou por cirurgia robótica, com taxa de sucesso acima de 95%.
Perguntas frequentes
Refluxo vesicoureteral tem cura?
Tem. Pode desaparecer sozinho com o crescimento, principalmente nos graus baixos, ou ser corrigido por cirurgia quando existe indicação.
Toda criança com infecção urinária tem refluxo?
Não. O refluxo aparece em parte dos casos, e o diagnóstico depende de exame específico, não do episódio de infecção em si.
A profilaxia com antibiótico é segura?
Quando bem indicada e acompanhada, sim. Ela usa dose baixa, com objetivo de evitar novas infecções enquanto o refluxo ainda existe.
O refluxo dói?
Não. O que dói é a infecção urinária que pode vir junto. O refluxo em si é silencioso, e essa é a razão de ele passar despercebido.
Meu filho vai precisar de cirurgia?
Na maioria dos casos, não. A decisão leva em conta o grau, a idade, se há cicatriz renal e como a criança responde ao acompanhamento.
Pode voltar depois da cirurgia?
É incomum. O reimplante ureteral tem alta taxa de sucesso, e o acompanhamento depois serve para confirmar que o rim segue bem.
Fontes
Sobre o autor
Dr. João Estrela é médico urologista em Salvador-BA, com atuação em urologia pediátrica, cirurgia robótica e vasectomia sem cortes. Formado pela UFBA, com residência em Cirurgia Geral e em Urologia, atende crianças e adultos com foco em diagnóstico correto antes de qualquer indicação cirúrgica.
CRM-BA 27225 · RQE 20093 · Salvador, BA
Aviso: este conteúdo é informativo e educativo e não substitui uma consulta médica. Só a avaliação com um urologista de confiança pode dizer o que vale para o caso do seu filho.
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Publicado em 25 de setembro de 2026 · Rins e vias urinárias


